8 de setembro de 2014

O Melhor dos Dois Mundos - Reflexões ao pé da arara



 



Coluna escrita a 4 mãos

Sexta-feira à noite. Casa vazia, todo mundo fora. O fim de semana só para ela. Dois dias e duas noites. Tudo preparado: algumas garrafas de espumante, burrata e Parma. A xícara com borda dourada, porcelana fina, herança de família, o chá importado. A taça de cristal. Tudo lá, na mesa. O vestido "de casa" Cavalli. Californication no DVD. Hank Moody. Fraco, negligente, egoísta, patético, doce, gentil, fiel, sensível, dividido.

O mundo à Moody volta à mente em cenas soltas. Uma época em que não existiam taças de cristal, nem chá em xícara de porcelana. Era copo Lagoinha com três dedos de uísque, qualquer um, na fase de aquecimento, e café forte às 6 da manhã antes de voltar para casa. Jeans, qualquer um, camiseta, sapatilha, tudo bem confortável para aguentar 8 horas de rave. Madrugadas vividas a cada minuto, cada minuto extremamente precioso porque traziam a promessa de algo desconhecido, inconsequente, libertador.

Os minutos agora são contados para dar conta das mil tarefas assumidas talvez para preencher o vazio deixado pelos minutos de intensidade que surgiam com o copo Lagoinha colocado na mesa. A taça de cristal agora é mais um afago, um presente, um intervalo. Que tem o mesmo valor que o copo Lagoinha. Porque foi conquistada, é saboreada, é merecida. A medalha depois das batalhas.

A vida acontece entre esses dois mundos. Um é seguro, programado e programável, previsível, real, socialmente adequado. É o mundo para o qual as pessoas de "boas famílias" e aspirações burguesas foram criadas. O mundo que dá orgulho e tranquilidade aos pais, avós, tios, vizinhos, cães e pet shops. Viver nesse mundo é definitivamente necessário em algum momento da vida que prossegue como "deve": trabalho, contas pagas no dia certo, saída de fim de semana com a família, viagens de férias, restaurantes bons, festas em casa dos amigos, cabelo arrumado, sobrancelha pinçada, unha feita.

O outro mundo tem cabelo azul, rock'n'roll, estrelas, impossibilidades possíveis, esperança e desespero. Um mundo mais pesado, intenso, egocêntrico e, por isso mesmo, atraente. Acordar com a vaga lembrança que dançou a noite inteira. Acordar com a vaga lembrança de que houve uma noite anterior. Acusações de negligência com as pessoas que te cercam, te amam; acusações de desperdício de tempo, talento e oportunidades.

O corpo não dá mais conta de noites em claro e pede mais prumo. As responsabilidades adquiridas pedem mais água e chá. Só que ficaram lá dentro, nas células, as lembranças de dias mais inconsequentes, mais parecidos com um mundo de fantasia que, por algumas horas na noite, era muito real. O mundo volta ao normal por um fim de semana. Desta vez, com menos inconsequência, mas com mais vontade de mostrar que ainda tem aventura, desprendimento, autenticidade naquele corpo mais saudável, mas saudoso.

 
A interseção dos mundos ensina aceitar a fraqueza, o egoísmo, o ridículo, as responsabilidades, a gentileza, o altruísmo, a fidelidade; aceitar que é difícil conciliar certos desejos e sobriedade; aceitar que a busca nunca acaba e que os dois mundos sempre estarão em interseção. Mesmo que um deles fique mais nas lembranças. Qualquer um deles. "O mundo pode ser um bom lugar." Depende do ponto de vista. Quando se aprende a viver o melhor dos dois mundos, um deles fica menos presente mas, aos poucos, vai ficando mais bem vivido. E os passos da dança entre o copo Lagoinha e a taça de cristal no armário vão se sincronizando...

Um comentário:

  1. Legal Abi!! Belo texto! É sempre difícil botar o Lagoinha pra dançar com a Taça de Cristal, ainda mais no samba do crioulo doido do dia a dia! Mas as coisas sempre se arrumam, e se não se arrumaram, é porque ainda tem muita dança pra rolar!

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