28 de agosto de 2014

Mais vale um gato na rua do que dois voando - Reflexões ao pé da arara






Sabe aqueles dias em que você acorda com uma vontade enorme, irresistível, incontrolável, avassaladora, de brincar com um gato? E você tem aquela sensação de frustração, desespero, impotência, carência, quando percebe que não tem um gato?

Esses dias chegaram ao fim. Porque os taiwaneses inventaram os Cat Cafes. Você vai, paga uma taxa por hora que, dependendo do café, dá direito a uma bebida, e brinca com os gatos. De raças, tamanhos, cores e níveis de afeição variados.

Agora tem um em todas as cidades importantes do mundo: Tóquio, Dubai, Amsterdam... (os de lá são super-dóceis). A título de pesquisa, cancelei um encontro com as amigas e fui a um Cat Cafe. Afinal, quem precisa de amigos se você tem Facebook, smartphone e Cat Cafes?

Você entra, paga a taxa por hora, pega sua bebida (a minha foi um cappuccino), se senta e... Comecei a espirrar, o cappuccino respingou em um gato que começou a rosnar que nem dobermann. "Xô!" E bati o pé para espantar o bichano. Foi uma reação automática, inconsciente, primal. Inadequada. O barista, garçom, promoter, veterinário, sei lá, deu um pulo e disse: "MIAU MIAU MIAU!!! MIAU MIAU, MIAU?" Ou algo parecido. Tudo bem, não faço mais isso. Além do mais, gato com problema de personalidade eu não quero.

Fui para outro canto, me sentei em uma almofada equilibrando o cappuccino no pires. Tinha uma menina brincando com um gatinho ao meu lado, agitando uma varinha com uma minhoca de pano na ponta. O gato olhava, depois abaixava a cabeça e lambia a pata. Olhava de novo como a gente olha para as vendedoras que insistem que a blusa de R$ 500,00 é seda pura, e não poliéster, como diz a etiqueta, e continuava a lamber outras partes do corpo. Não entendo muito de gato, mas se você vai na casa de alguém e, a certa altura, esse alguém começa a lamber a bunda, ou você se lembra da hora marcada no dentista para extrair o siso e vai embora ou começa a lamber a própria bunda também. Para não constranger o anfitrião. Como eu estava segurando o cappuccino e não tenho mais siso, tive que deixar o anfitrião constrangido.

Mudei de almofada. Uma gatinha (o cara ao lado disse que era fêmea. Sem eu perguntar) branca estava esticada no chão e o cara tentava brincar com ela. Fazia caras e bocas, chamava a gata de meu amor, de linda, poderosa, chegava com a mão a alguns centímetros de distância da cabeça da gata, mas imediatamente afastava. Ficou nisso uns 10 minutos. Fiquei observando. Paguei por uma hora e ainda faltavam 50 minutos. A gata, imóvel. O cara, vertendo lágrimas. Cueca da Hello Kitty aparecendo e rímel nos olhos. Nessa altura, embaixo dos olhos. Fui circular. Um gato enorme, preto, dormindo e duas meninas dando gritinhos e pulinhos de felicidade. Que lindo! E o gato dormindo. E elas, extasiadas, deram as mãos, mais pulinhos e mais gritinhos. Que lindo! E o gato dormindo.

São 5 gatos ao todo neste Cat Cafe. Interagi com 4. Faltava 1. Queria aproveitar todos os centavos que paguei pela hora. Comecei a procurar. Chega outra cliente com chá de camomila na mão, sandália, meia soquete e saia estampada até o tornozelo. Senti que ela entendia de gato e me aproximei. Ela abre um sorriso do gato de Alice e olha intensamente para todos os 4 gatos. Fiz a mesma coisa. Li o pensamento dela (poder extrassensorial felino): "Com qual dos gatos imóveis interagir?" Decidiu se sentar. Dois gatos amarelos surgem do nada e cravam unhas e dentes no tornozelo da novata. A agilidade, velocidade, ferocidade, precisão e determinação felinas são impressionantes. A mulher grita. Os felinos não largam a presa. A mulher derruba o chá de camomila no Hello Kitty que tinha se deitado no chão, ainda olhando para a gata branca (the white cat, em felinês). O rímel borra e ele parece paralisado. Os gatos não largam a presa.

A gata branca se levanta e começa a lamber o chá que caiu no Hello Kitty. Não gosta e vomita uma bolinha de pelo. O Hello Kitty continua paralisado. A mulher continua gritando. As meninas começam a rir. O garçom para de miar, sai e volta com um esfregão. Termino meu cappuccino, feliz. Paguei por 5 e vi 6. Decido que diversão em excesso faz mal e saio de fininho. Ao abrir a porta, olho para trás. Juro que os 6 gatos estavam rindo.


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